A humanidade não nasceu de um único povo: o que o ADN revelou sobre as nossas origens


28 de abril de 2026


Um estudo publicado na Nature derrubou a teoria de que o Homo sapiens surgiu de uma única população africana, e a nova imagem é muito mais complexa e fascinante.

Durante muito tempo, a explicação mais aceite foi a de que, há cerca de 150.000 anos, algures em África, surgiu um grupo de pessoas do qual descendia toda a humanidade. Esse grupo foi crescendo, espalhando-se pelo continente e, pouco a pouco, colonizando o mundo inteiro. Esta teoria ficou conhecida como o modelo da Origem Recente Africana ou, na sua versão mais popular, Out of Africa, e foi sustentada por evidências fósseis e estudos de ADN mitocondrial (o material genético transmitido exclusivamente pela linha materna).


Mas um estudo genético de grande escala publicado recentemente na Nature e amplamente divulgado em todo o mundo veio mostrar que essa história estava incompleta. A origem humana não foi um ponto no mapa, mas algo muito mais parecido com uma teia.

O que os cientistas encontraram

A investigação foi conduzida por Brenna Henn, da Universidade da Califórnia em Davis, e Simon Gravel, da Universidade McGill, no Canadá. A equipa analisou o material genético de 290 pessoas pertencentes a populações do sul, leste e oeste de África. Além disso, sequenciaram pela primeira vez o genoma de 44 indivíduos do povo Nama, uma população indígena do sul do continente com uma diversidade genética fora do comum.


O que os dados revelaram era muito diferente do modelo anterior. Em vez de uma única linhagem da qual todos os humanos descendem, o estudo aponta para várias populações humanas que viveram em regiões distintas de África, se misturaram, se separaram e voltaram a misturar-se ao longo de centenas de milhares de anos.


Na prática, não existia uma única berço da humanidade, mas vários, e estavam em contacto permanente entre si. As diferenças genéticas entre estes grupos eram tão pequenas quanto as que existem entre as populações humanas actuais, o que explica por que razão os fósseis encontrados em regiões distantes de África apresentam características físicas semelhantes.

Uma história mais difícil de contar

O modelo antigo tinha uma certa simplicidade que o tornava fácil de compreender e de explicar: uma origem, um ponto de partida e uma história que avança em linha recta. O novo modelo é mais confuso, cheio de idas e vindas.


Brenna Henn, professora de antropologia na UC Davis e uma das investigadoras responsáveis pelo estudo, resume bem o alcance da descoberta: «Estamos a apresentar algo que nunca havia sido testado antes. Isto faz avançar a ciência antropológica de forma significativa.»


Tim Weaver, também da UC Davis e especialista em fósseis humanos, acrescenta: «Modelos anteriores mais complexos propunham contribuições de hominídeos arcaicos, mas este modelo aponta na direcção contrária.» Por outras palavras, não é necessário recorrer a populações desconhecidas para explicar a diversidade genética humana — a estrutura interna das próprias populações ancestrais já basta para dar conta disso.


A mudança que a ciência precisa de fazer agora é, no fundo, de imagem: deixar de pensar na evolução humana como uma árvore, com um tronco único e ramos que se abrem, e passar a pensá-la como uma rede, com caminhos que se cruzam, se afastam e se reencontram continuamente.

O povo Nama e o que ainda falta descobrir

A decisão de incluir os genomas do povo Nama foi um elemento-chave do estudo. Os Nama fazem parte dos povos Khoisan do sul de África, que possuem a maior diversidade genética de todos os humanos vivos, o que torna o seu ADN uma janela privilegiada para o passado mais remoto da espécie. As amostras foram recolhidas entre 2012 e 2015 a partir de saliva de habitantes de aldeias locais.


Com esses dados, os investigadores conseguiram determinar que a separação mais antiga entre populações humanas ainda detectável nas pessoas de hoje ocorreu entre 120.000 e 135.000 anos atrás. Antes disso, dois ou mais grupos de Homo viviam interligados, trocando genes durante centenas de milhares de anos. E mesmo após essa separação, o contacto continuou.


Os investigadores calcularam que apenas entre 1% e 4% das diferenças genéticas existentes entre as populações humanas actuais provêm da variação entre esses grupos ancestrais. Isto confirma que os primeiros humanos se assemelhavam fisicamente muito entre si, independentemente da parte de África em que viviam.


Ainda assim, muito está por descobrir, e uma das maiores lacunas é a escassez de ADN africano antigo. Se já dispomos de genomas sequenciados de neandertais e denisovanos graças a fósseis encontrados na Europa e na Ásia, o material genético de africanos antigos continua a ser escasso, o que limita a precisão dos modelos. Weaver assinala, por exemplo, que fósseis como o Homo naledi provavelmente não contribuíram para a linhagem do Homo sapiens moderno, mas confirmá-lo exigirá muito mais dados.

Referências

MCGILL UNIVERSITY. A new understanding of human origins in Africa. Montreal: McGill Newsroom, 17 maio 2023. Disponível aqui. Consultado em: 27 abr. 2026.


O CAFEZINHO. Pesquisa genética redefine origem da espécie humana: Homo sapiens nasceu de várias populações africanas interligadas. 26 abr. 2026. Disponível aqui. Consultado em: 27 abr. 2026.


RAGSDALE, Aaron P. et al. A weakly structured stem for human origins in Africa. Nature, vol. 617, n.º 7962, pp. 755–763, 2023. DOI: 10.1038/s41586-023-06055-y. Disponível aqui. Acesso aberto via PMC: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10208968/. Consultado em: 27 abr. 2026.


SCIENCEDAILY. DNA research just rewrote the origin of human species. 26 abr. 2026. Disponível aqui. Consultado em: 27 abr. 2026.


SMITHSONIAN MAGAZINE. DNA suggests modern humans emerged from several groups in Africa, not one. Washington: Smithsonian Institution, 2023. Disponível aqui. Consultado em: 27 abr. 2026.


UC DAVIS. New UC Davis research using DNA changes origin of human species, researchers suggest. Davis: UC Davis News, 17 maio 2023. Disponível aqui. Consultado em: 27 abr. 2026.

Ver também

Entre em contato

contato@universoinspira.com

(11) 96588-8720


Copyright © 2025 | Universo Inspira