Molécula desenvolvida no Brasil desperta esperança na regeneração da medula espinal


03 de março de 2026


Crédito: Eduardo Knapp/Folhapress


A polilaminina, desenvolvida no Brasil pela UFRJ, revela potencial na regeneração da medula espinal em estudos com animais, mas especialistas alertam que a sua eficácia e segurança em humanos ainda não foram comprovadas.

Uma molécula experimental desenvolvida por investigadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) tem despertado o interesse da comunidade científica pelo seu potencial para estimular a regeneração de ligações nervosas após lesões na medula espinal. Batizada de polilaminina, a substância está a ser estudada como uma possível estratégia terapêutica para apoiar a recuperação de movimentos em casos de paralisia.

Derivada da laminina, proteína naturalmente presente no organismo, a polilaminina é produzida em laboratório de forma a preservar uma estrutura tridimensional estável. Esta configuração funciona como um “andaime biológico”, criando um ambiente favorável ao crescimento de neurónios nas áreas lesionadas da medula.

Resultados promissores em animais

Em estudos pré-clínicos realizados com modelos animais, como ratos e cães paraplégicos, a substância demonstrou indícios de melhoria motora. As experiências sugerem que a polilaminina poderá estimular o crescimento de axónios, favorecer a reconexão de fibras nervosas danificadas e contribuir para a redução de processos inflamatórios na zona afetada.

Estes resultados reforçaram as expectativas quanto à possibilidade de, no futuro, a tecnologia desenvolvida no país poder contribuir para a recuperação de funções motoras comprometidas por traumatismos medulares. Ainda assim, os investigadores sublinham que os dados obtidos em animais não garantem eficácia em humanos.

Fase inicial de ensaios em humanos

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), entidade reguladora brasileira, autorizou a realização de ensaios clínicos de fase 1, destinados a avaliar a segurança da polilaminina num pequeno grupo de doentes com lesão medular completa aguda. Esta fase centra-se sobretudo na identificação de eventuais efeitos adversos, não tendo como objetivo principal comprovar a eficácia terapêutica.

Até ao momento, não existem evidências conclusivas que confirmem a segurança ou a eficácia da substância em larga escala. Para tal, serão necessárias fases posteriores de investigação, com um maior número de participantes, grupos de controlo e publicação dos resultados em revistas científicas sujeitas a revisão por pares.

Prudência perante a repercussão pública

Apesar de ainda se encontrar numa fase experimental, a polilaminina começou a ser divulgada nas redes sociais como uma possível “cura” para a paralisia, o que levou sociedades médicas e especialistas brasileiros a reforçarem a importância da prudência. A criação de expectativas excessivas pode gerar frustração e desinformação, sobretudo entre doentes e familiares que procuram alternativas terapêuticas.

O desenvolvimento científico é um processo gradual que exige validação rigorosa antes da sua aplicação clínica em larga escala. Só após a demonstração consistente de segurança e eficácia em estudos robustos será possível solicitar a aprovação definitiva para uso terapêutico.

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